segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Revista Desafinado - Janeiro

Edição especial traz na íntegra Trabalho de Conclusão de Curso do historiador Luis Felipe Machado de Genaro. Bate-papo com o autor e lançamento acontecem dia 12


Chega às bancas no próximo dia 12, segunda-feira, a edição de janeiro de 2015 da revista Desafinado. A publicação é um especial com o Trabalho de Conclusão de Curso do historiador Luis Felipe Machado de Genaro, lançada com exclusividade e na íntegra pelo periódico itarareense. O evento de lançamento da edição acontece no dia 12, às 20h, no Centro do Professorado Paulista - CPP. A entrada é gratuita! Na ocasião, o autor recebe os leitores para um bate-papo exclusivo sobre a pesquisa que deu origem ao trabalho. Não percam!

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Ano dos extremos: o breve 2014

Dos rolezinhos à ascensão de um novo Estado Islâmico, passando pela Copa das Copas e a eleição presidencial mais disputada desde a redemocratização, novamente ameaçada

por MURILO CLETO


Um século inteiro caberia em 2014. Bem conversadinho, dois até. Nele concentraram-se as grandes interrogações do século XXI, mas também os dilemas do XX, que, ao contrário do que previram, ainda não acabou.

Já em janeiro, noticiários e redes sociais estavam tomados pelo grande debate da primeira metade do ano: os rolezinhos. Criminalizados pela polícia e discriminados pela classe média de dentro ou fora das capitais, os movimentos trouxeram à tona duas questões nunca tão ouvidas antes: liberdade e consumo. De repente, o consumismo na juventude virou uma preocupação. Mandaram-na ouvir Chico Buarque em vez de funk - o mesmo Chico Buarque que apareceu depois numa montagem que o exibia tomando café em Paris com dinheiro da Lei Rouanet, o que explicava, segundo quem compartilhou, seu apoio ao Partido dos Trabalhadores nas eleições presidenciais. 

2014 foi o ano do pleito mais disputado e inusitado desde a redemocratização: apenas 4 milhões de votos separaram a reeleição de Dilma Rousseff de uma Restauração Tucana. Isso porque a morte de uma até então discreta figura que aspirava a condição de 3ª via quase significou a ascensão de uma camaleônica Marina Silva, por fim rapidamente sepultada. Foi o ano em que a militância orgânica petista mais uma vez fez a diferença, ainda que meses depois fosse traída com a escolha do novo gabinete ministerial.

Este foi o ano de várias marchas pra trás. Foi o ano em que o Código de Hamurabi quase substituiu o código penal com a ação de justiceiros no Flamengo que, incentivada em TV aberta por Rachel Sheherazade, inspirou a maior onda de linchamentos neste país. 

2014 mostrou que é perfeitamente justificável um parlamentar se dirigir a uma colega dizendo que não a estupraria porque ela não merece. Em 2014, a homofobia continua não sendo crime e a iniciativa do Senado em tipificar os assassinatos de mulheres foi massacrada por trazer "vantagens" ao sexo feminino.

50 anos depois do golpe que levou o país à mordaça, ao caos econômico e aos maiores índices de desigualdade social da história, milhares de pessoas voltaram às ruas pra pedir "intervenção militar", alimentados pela mesma paranoia da Guerra Fria: o medo do comunismo. Em 2014 vimos que o espírito golpista paira nas estruturas da própria democracia. Nunca vimos tanta gente defendendo o fim do sufrágio universal.

Mesmo que vigore há muitos anos, em 2014 a Política Nacional de Participação Social foi reprovada pelo Congresso sob o carimbo de "bolivariana". Aécio Neves chegou a usar como principal cartada na reta final das eleições o financiamento do BNDES à empresa brasileira que investiu na reforma do Porto Mariel em Cuba. Milhões de queixos caíram com a reaproximação entre os Estados Unidos e a ilha castrista, separados há mais de 50 anos. E ninguém imaginaria que um dos mediadores deste aperto de mãos seria ninguém menos que o papa. 

2014 também foi o ano da mais brutal investida nos últimos tempos de Israel na Faixa de Gaza. Assistimos ao mais novo espetáculo de horrores no Oriente Médio com a ascensão de um novo Estado Islâmico, o ISIS, que tomou grande parte de Iraque e Síria também em reação à desastrosa ocupação ocidental que se desenrola desde 2001 na região. Foi o ano de novos bombardeios contra terroristas.

Este foi o ano em que o Brasil saiu da Mapa da Fome. O ano em que conscientes sociais descobriram que o salário do professor é bem menor que o do Neymar. Que tem corrupção no país. Que falta Educação. Foi o ano em que a presidenta da república recebeu vaias e ofensas em plena abertura da Copa das Copas, que acabou pra seleção brasileira com um surreal massacre diante da Alemanha e despertou incansáveis análises estruturais do futebol nacional.

2014 foi o ano dos paus de selfie - e também do inverso. 

2014 foi a despedida de grandes figuras públicas. A lista é imensa: Eusébio, Plínio de Arruda Sampaio, Eduardo Coutinho, Philip Seymour Hoffman, Gabriel García Márquez, Luciano do Valle, Rubin Carter, Jair Rodrigues, Oberdan Cattani, Fernandão, Di Stéfano, Osmar Oliveira, Tommy Ramone, Vange Leonel, Johnny Winter, Ariano Suassuna, Robin Williams, Nicolau Sevcenko, Jacques Le Goff, Manoel de Barros, Roberto Bolaños. Em 2014, nos deixou até a Mãe Dinah, que não previu a própria a morte.

Do anticomunismo sessentista à atual guerra de civilizações, o ano de 2014 é a versão reduzida e contemporânea de 2 séculos mal resolvidos. Se 2015 vai dar conta, nos encontramos aqui pra conversar.

Abraços, 
Murilo 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Uma breve história do Natal

Dos sincretismos religiosos à apropriação capitalista, como o Natal se transformou em uma das principais datas do calendário ocidental e oriental

por OSVALDO RODRIGUES JUNIOR

Charge do Padre Sponholz 

O Natal é a celebração do nascimento do personagem principal da história do Cristianismo, Jesus Cristo. Nesta data, celebra-se a renovação dos valores cristãos. Porém, a origem do Natal remonta há muitos anos antes do nascimento do Cristianismo.

Segundo Rainer Souza, na Mesopotâmia celebrava-se o Zagmuk, uma data que simbolizava o fim do ano e era representada pela batalha de Marduk, a principal divindade mesopotâmica contra monstros horríveis. Nesta data, um homem era escolhido para ser vestido e tratado como rei e depois era sacrificado para "pagar" os pecados do mundo.

Nas civilizações nórdicas, o Yule, retorno do Sol, era comemorado em 21 de dezembro. Na Roma Antiga a data de 25 de dezembro celebrava o nascimento do deus Sol, conhecido como “Natalis Solis Invicti”. Entre os dias 17 e 24 de dezembro ocorriam as festas conhecidas como "Saturnália". Regadas a muita bebida e comida, as festas subvertiam os padrões com o objetivo de promover a renovação dos valores vigentes.

Após a morte de Jesus, condenado em 30 d.C acusado de dizer-se rei dos judeus, os apóstolos passaram a promover o Cristianismo. Em 64 d.C começaram as perseguições aos cristãos que agregavam judeus convertidos, não-judeus, escravos e povos submetidos pelos romanos, que acreditavam no retorno de Jesus e na instauração do Reino de Deus. Perseguidos, os cristãos eram obrigados a realizar os seus cultos nas chamadas "catacumbas", que também eram utilizadas como espaço para o sepultamento dos mortos. 

Em 313, o imperador do Império Romano do Ocidente, Constantino e o imperador do Império Romano do Ocidente, Licínio, se reuniram em Milão e promulgaram o "Edito de Milão", documento que marca a liberdade de culto aos cristãos. Segundo a lenda, Constantino teria dito a Eusébio de Cesaréia que antes da batalha de Saxa Rubia, contra Maxêncio pelo controle do Império Romano, visualizou uma cruz no céu e uma voz dizendo “minha paz está contigo... com este símbolo vencerá”. Tal fato teria impulsionado o imperador a aceitar a prática do Cristianismo. Por meio do Edito de Tessalônica, instituído em 390 pelo imperador Teodósio, o Cristianismo foi transformado em religião oficial do Império. Segundo Gilberto Salomão, "com esse ato, ele buscava não apenas exercer um controle sobre a crença cristã, mas, dando ao Cristianismo um caráter oficial, também utilizar a estrutura da Igreja como instrumento organizativo do Império".

Visão da Cruz, de Rafael Sanzio

Com a oficialização do Cristianismo, as festividades pagãs foram cristianizadas na forma de sincretismo religioso. Sincretizar significa reunir, ou seja, foram reunidos aspectos das festividades pagãs e cristãs e o Natal foi transformado na comemoração do nascimento de Jesus Cristo. Segundo estudos, a data de nascimento de Jesus Cristo não foi o dia 25 de dezembro. Conforme Valeriano Santos Costa, "a teoria mais forte atualmente é que a data tenha sido escolhida para se contrapor à principal festa religiosa dos romanos, do Sol Invencível, que se dava na noite do dia 24". Mesmo com a imprecisão dos evangelhos, o Papa Julius I (337 -352) reconheceu a data de 25 de dezembro como a data de nascimento de Jesus Cristo, oficializando as festividades do Natal. 

Atualmente, Jesus Cristo divide o protagonismo do Natal com Papai Noel ou "o bom velhinho", como é conhecido. Tal personagem se originou da história de São Nicolau, um monge turco que viveu durante o século IV. Conta a história que o monge teria ajudado uma jovem a não ser vendida pelo pai atirando um saco cheio de moedas de ouro pela chaminé para o pagamento do dote. Cinco séculos mais tarde, São Nicolau foi reconhecido como santo pela Igreja Católica.

Dia 6 de dezembro foi oficializado como o dia de São Nicolau. Nesta data as crianças aguardavam pelos presentes de um homem velho que usava trajes de bispo. No final do século XIX, o desenhista alemão Thomas Nast publicou na revista norte-americana “Harper’s Weekly” um novo desenho do "Papai Noel". Em 1931 Haddon Sundblom, contratado pela empresa de refrigerantes “Coca-Cola”, criou o padrão vermelho das vestimentas. Tal cor estava diretamente relacionada à própria marca de refrigerantes representando a apropriação definitiva do Natal pela economia capitalista. Daí em diante, a figura do "Papai Noel" vestido de vermelho de barba branca, mais do que a bondade da doação de presentes, passou a representar o consumo, maior característica do Natal, que deve movimentar 31,8 bilhões só no Brasil neste ano de 2014. 

Papai Noel em cartaz publicitário de Haddon Sundblom

Desta forma, sincretismos religiosos e apropriações econômicas transformaram o Natal em tempo de celebração e consumo.

Abraços,
Osvaldo.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Ministério da Fazenda notifica Itararé a devolver R$ 3 milhões

Esquema de compensações previdenciárias da Gestão Perúcio lesou os cofres da Receita Federal durante 3 anos. Além do ressarcimento corrigido dos valores, a Prefeitura deve pagar multa avaliada em quase R$ 1,5 mi
por MURILO CLETO


Conforme noticiado com exclusividade pelo blog Desafinado em julho, a gestão Perúcio contratou escritórios de advocacia especializados em compensações indenizatórias junto à Receita Federal entre 2010 e 2013. O objetivo era recuperar pagamentos anteriores ao Instituto Nacional do Seguro Social e incorporar os valores ao caixa municipal, derrubando o índice previsto pela Lei de Responsabilidade Fiscal para gastos com pessoal - o que garantia, na prática, os altos salários pagos a efetivos e comissionados durante o período.

(Entenda o caso completo aqui.)


De acordo com as 464 do processo 10.885.724417/2014-78 e o termo de ciência enviado nesta última sexta-feira (19 de dezembro) para a Assessoria Jurídica do Gabinete, todos os valores recuperados pela empresa Nunes Amaral Advogados em 2010 devem ser devolvidos à Receita Federal. Ao todo, o Ministério da Fazenda identificou R$ 960.346,87 indevidamente compensados, como resultado do contrato nº 129/2010. Pelos serviços, o executivo municipal pagou R$ 132.527,75 ao escritório. Além da devolução dos valores atualizados da compensação, a Prefeitura de Itararé também foi multada em R$ 1.440.520,31, Confira a relação completa de valores:

CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA - EMPRESA
Contribuição ______________________________________R$ 960.346,87
Juros ____________________________________________R$ 360.802,32
Multa de Mora ____________________________________R$ 192.069,38
Valor do Crédito Apurado ___________________________R$ 1.513.218,57

MULTA ISOLADA POR COMPENSAÇÃO INDEVIDA
Multa ___________________________________________R$ 1.440.520,31


Em 2011, foram compensados R$ 1.230.154,11 e, em 2012, nada menos que 8.565.516,02. Em caso de condenação, Itararé pode precisar desembolsar mais de R$ 30 milhões nos próximos anos para quitar o imbróglio com o Ministério da Fazenda.

O município tem 30 dias para apresentar impugnação.

Abraços, 
Murilo

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Desastres naturais e anunciados

Melhor prevenir do que remediar

por MARCUS VINÍCIUS DO NASCIMENTO


Todo o início de ano no Brasil, como bem sabemos, é marcado pelas fortes chuvas que causam grandes problemas e ocupam um papel de destaque nos noticiários (alguns destes já são especialistas em cobrir tal tipo de notícia).

Apesar de nos últimos meses termos vivenciado um grave período de estiagem em São Paulo, as chuvas no começo do ano costumam ser intensas e os seus impactos são imediatos: ruas alagadas, cheiro de esgoto, doenças, desmoronamentos, bairros e cidades destruídas, pessoas isoladas e, o pior de tudo, mortes.

De acordo com a Secretaria Nacional de Defesa Civil, as perdas materiais e humanas causadas por desastres naturais são tão elevadas quanto as provocadas por guerras. Os moradores das áreas afetadas sofrem com o aumento do custo vida e todos os problemas decorrentes dele.

Nas grandes tragédias sempre assistimos a Defesa Civil socorrer, reconstruir e dar assistência às vítimas das tragédias, e assim passamos a acreditar que o poder público "cumpriu com o seu dever". Mas será? A Defesa Civil não deveria promover um conjunto de ações preventivas destinadas a minimizar ou até mesmo evitar os efeitos das catástrofes?

Não se pode afirmar que o poder público não colocou em prática ações preventivas, mas estas ocorrem em um ritmo muito lento para as necessidades da população que está sujeita aos efeitos das chuvas.

Vários estudiosos já alertaram sobre os riscos de se viver ou transitar em determinadas áreas e nessas ocasiões a população precisa ser informada e amparada, porém o poder público, ao invés de agir, parece aguardar a tragédia anunciada para depois “limpar a bagunça”.


Se investíssemos em prevenção, os gastos para o combate dos efeitos dos desastres poderiam ser utilizados para ampliar os inúmeros programas sociais que dão dignidade aos brasileiros que mais sofrem. 

Enfim, depender da Defesa Civil para ações preventivas pode ser algo trágico e fatal. O heroísmo não está apenas em resgatar alguém de desastre, mas também evitar os seus efeitos mais danosos, e como diria o velho ditado: melhor prevenir do que remediar

Abraços,
Marcus.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Itararé nunca tem nada

por MURILO CLETO



Itararé nunca tem nada. Todo mundo sabe. Itararé está largada. Não tem Cultura aqui. Se Cultura de Itararé fosse algo bom, não começava com Cu de Cuba. Vou-me embora pra Pasárgada. Ou pra Sorocaba. Lá tem Cultura. Aqui já teve. Antigamente tinha. Hoje em dia não tem nada, né. Itararé nunca tem nada.


Até aqui, foram 2 anos da gestão Cristina Ghizzi em Itararé. Durante boa parte deste tempo, ouvi dentro e fora do gabinete o mantra acima repetido como um velho cacoete. E olha que não foi só de quem, como dizem, não tem Cultura. Professores, médicos, advogados, desocupados, tanto faz. Itararé nunca tem nada.

Em janeiro de 2013, a Coordenadoria de Cultura ocupava a parte superior do Teatro Municipal Sylvio Machado e dispunha, à época, de 4 funcionários: a coordenadora, uma escriturária, uma auxiliar de serviços e um estagiário - isso além da biblioteca, que, apesar de pertencer à pasta, tem um demanda muito própria. Isso é pouco, muito pouco. O teatro estava inacabado. Erguido em 1987, continuava sem conclusão 25 anos depois. Isso é um absurdo, muito absurdo. Com um expediente diário de 5 horas e meia, a pasta não oferecia nenhum programa contínuo de espetáculos ou formação cultural. Circuito Sesc de Artes? Uma vez por ano. Oficina Cultural Grande Otelo? Uma vez por ano. E isso não é pouco: é simplesmente inadmissível.

Mas faltava dinheiro. A Cultura sempre foi o primo pobre de toda administração e isso todo mundo sabe. Em 2012, último ano da gestão Perúcio, o orçamento global anual da pasta não ultrapassava R$ 332.587,86. Em 2013, a conta permaneceu praticamente a mesma. O teatro ainda era o mesmo. A estrutura, mais ou menos a mesma também. Ao todo, a Coordenadoria podia contar com R$ 365.846,65 de orçamento próprio, com 68% já comprometidos com a folha salarial; 13% destinados a subvenções sociais; e menos de 15% para outros investimentos. Milagre não dava pra fazer. Mas também não precisava. 

E não precisou. Já em março de 2013, o município foi selecionado para integrar, pela primeira vez na história de 7 anos de existência, o Circuito Cultural Paulista. O programa é uma realização do governo do estado de São Paulo, com execução da Associação Paulista dos Amigos da Arte, e que precisa de uma dedicação importante de parceria dos municípios pra acontecer. Desde maio do ano passado, já foram 14 espetáculos do CCP aqui. 4 mil pessoas assistiram a espetáculos de música, dança, teatro e circo em diversos pontos da cidade: o abandonado Teatro Municipal Sylvio Machado é um deles, assim como as praças São Pedro, Matriz, Avelino Vieira e São José. 

Essa foi a primeira vez na história que teve arte nas duas últimas. E não foi qualquer arte. No Jardim Alvorada, ninguém menos que o 'Duo Morales', que já percorreu praticamente todo o continente com um espetáculo que encantou um bairro em que, efetivamente, nunca teve quase nada. A Vila Osório, então, recebeu simplesmente o Melhor Espetáculo Jovem de 2014, eleito pelo Prêmio São Paulo de Incentivo ao Teatro Infantil e Jovem. Foi a primeira vez na história que uma peça de teatro aconteceu ali.

O Parque Centenário também foi parte deste processo tímido de descentralização: no começo de maio, a Cia. Domínio Público esteve na Escola Municipal Juracy Martins pra apresentar o primeiro espetáculo de dança contemporânea já visto por lá. De quebra, um dos bailarinos ainda deu um pocket show fantástico logo depois. Aliás, Itararé nunca teve tanta dança: Domínio Público, Mercearia de Ideias, Dudude, Companhia Brasileira de Danças Clássicas. Parecia um sonho irrealizável, mas a São Paulo Companhia de Dança esteve pela primeira vez na cidade pra apresentar palestra e oficina gratuitas no Teatro Municipal.

Itararé também nunca teve tanta oficina. De que adianta apresentar espetáculo se ninguém ensina a fazer? De dança, foram 2. De teatro, 3 - uma delas em parceria com a Funarte e outra oferecida pela Nossa Trupe Teatral - que também deu espetáculo. De fotografia ou cinema, 13 - TREZE. Além do pleno funcionamento do Projeto Guri, que atende hoje 82 crianças e adolescentes, a Escola Municipal de Música dá os primeiros passos numa das salas do antigo centro cultural, que, aliás, precisou ter a biblioteca transferida graças os risco de desmoronamento.

Já teve cinema em Itararé. Remontam aos anos 1910 as primeiras exibições no cineteatro São Pedro. E, já faz tempo, ficou sem. Mas, desde o ano passado, com o Museu da Imagem e do Som, o programa 'Pontos MIS' chegou ao Teatro Municipal e, só em 2014, exibiu 38 filmes, em 61 sessões, pra quase 3 mil espectadores. Se os equipamentos à disposição da Coordenadoria estavam sucateados, novos foram conquistados junto ao governo do estado ainda no ano passado. As oficinas oferecidas através desta parceria, com os melhores profissionais do audiovisual no país, atenderam mais de 100 participantes neste ano. A praça Matriz recebeu também, em 2013, o Energia em Cena, com uma gigantesca estrutura que exibiu, por 2 dias, filmes nacionais com qualidade igual ou superior à maioria dos cinemas comerciais do país.

Com Blues Etílicos em 2013 e Mariene de Castro em 2014, o Circuito Sesc de Artes nunca foi tão forte. A parceria com a instituição amadureceu e proporcionou novas atrações ao longo do ano, como Eureka On The Street, Mariangela Zan e Choro das 3 - que só não se concretizou graças ao temporal no dia 9.

Itararé nunca teve tanta ligação com o Conservatório de Tatuí. Em 2013, a Big Band embalou o aniversário do município com um ritmo bem diferente do que se acostumou com anos de uma Festa do Peão financiada com centenas de milhares de reais dos cofres públicos. Este ano, o Grupo de Choro e o Jazz Combo realizaram concertos memoráveis em julho e agosto.

Itararé nunca prestigiou a Orquestra Jazz Sinfônica de São Paulo. Isso até dezembro de 2013. Na ocasião, a parceria com o governo do estado de São Paulo e a Pensarte realizou este sonho inimaginável. Casa cheia pra prestigiar um finíssimo repertório apresentado de graça, num domingo à tarde - e depois de acabado o Campeonato Brasileiro.

Itararé também ainda não tido o EmCena Brasil. Agora teve e a praça São Pedro ficou lotada por 2 dias pra acompanhar circo, música, oficinas, cinema e teatro em 13 horas de uma programação eletrizante. Com o Natal Encantado, quase todo dia de dezembro ofereceu pelo menos uma atividade durante as festividades.

2014 foi também o ano em que Itararé conheceu o Mais Cultura nas Escolas. Jardim Pauliceia e Vila Novo Horizonte passaram a sediar atividades culturais desenvolvidas por agentes locais dentro e fora do espaço escolar. O resultado são duas comunidades explorando o que se tem de riqueza, tão negligenciada por quem não as conhece.

Este também foi o 2º ano de parceria com o curso de História das Faculdades Integradas de Itararé para a realização da Semana de História. Em 2014, a programação foi dedicada a reflexões sobre os 50 anos do Golpe Militar e encerrada com um concerto no Teatro Municipal com músicas compostas e perseguidas durante o Regime Militar. 20 de novembro mais uma vez não passou em branco, literalmente, e o Com Ciência ofereceu atividades de todos os gêneros para celebrar a memória de Zumbi dos Palmares. Pra quem quer fugir do senso comum, todo mês tem Debates Contemporâneos.

Talentos locais também nunca foram tão apoiados. Além das atividades de formação, oferecidas em todas as grandes linguagens artísticas, as participações no Revelando São Paulo, no Mapa Cultural Paulista, na FEAGER e em tantas outras feiras regionais, foi garantida regularmente. No último dia 14, o 3º festival de bandas de rock foi realizado em 2 anos. O gênero entrou, definitivamente, para a programação do município: teve banda ao vivo no Sylvio Machado pra comemorar seu dia internacional, em julho; e a inclusão na tradicional Festa de São Pedro, que garantiu o fim de uma marginalização anacrônica. Ao contrário do que se veiculou num ou outro jornal, teve espaço pra todos os estilos: foram 3 edições do 'Pratas da Casa', evento que reuniu jovens talentos do sertanejo ao jazz, passando por samba, pop e MPB. O Coral Santo Antonio nunca teve tantas oportunidades de apresentação: abriu os maiores concertos recebidos na cidade ao longo destes 2 anos. Isso sem contar os encontros de corais e cantatas.

E porque ainda há muito a se fazer, neste ano o vanguardista protocolo de intenções concentrado no Sistema Nacional de Cultura também chegou até aqui. A partir de agora, Itararé tem prazo pra elaborar um Plano Municipal de Cultura, criar um Conselho Municipal de Política Cultural, elaborar uma Lei Municipal de Incentivo à Cultura, abrir um Fundo Municipal de Cultura e realizar a Conferência Municipal de Cultura - que também nunca teve, até 2013, quando aconteceu na Câmara de Vereadores. Num futuro próximo, recursos federais vão chegar ao município exclusivamente para a Cultura, como hoje já acontece com Saúde, Educação e Assistência Social, por exemplo.

Uma ou outra coisa também deve ter tido: Caravana da Leitura, I Feira da Literatura Itarareense, Nossos Artistas, Cultura Solidária, por exemplo. Quer dizer, alguma coisa até tem.


Ah, mas ninguém fica sabendo. Também pudera, com cartazes, faixas, carros de som, TV, rádio, jornais e redes sociais realmente não se atinge ninguém. Bom, hoje é segunda. Itararé nunca tem nada. O certo é ficar em casa. Se Itararé nunca tem nada, imagine segunda.

Abraços,
Murilo

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

I can't breathe

Como a onda de assassinatos de negros por policiais, seguida de absolvição, escancara uma ferida aberta da “maior democracia do mundo”: a desigualdade racial 

por OSVALDO RODRIGUES JUNIOR

Jovem norte-americana durante protesto pela morte de Eric Garner 

No dia 17 de julho de 2014, Eric Garner, vendedor de cigarros ilegais em Nova Iorque, foi abordado pela polícia. Sem reação, o afro-americano foi jogado no chão e asfixiado pelo policial Daniel Pantaleo. No vídeo, Garner aparece dizendo “I can't breathe” (eu não consigo respirar), enquanto 5 policiais o encurralam contra o chão. Morreu a caminho do hospital vítima de ataque do coração. 

No dia 9 de agosto de 2014, Michael Brown, jovem afro-americano de 18 anos, foi abordado e alvejado com 6 (seis) tiros pelo policial Darren Wilson em Ferguson. Segundo a polícia, Brown praticava furtos e foi morto em legítima defesa por reagir à prisão. Dorian Johnson, que acompanhava Brown no momento da prisão, desmentiu a versão e afirmou que o jovem foi morto sem reagir, estando inclusive com as mãos para o alto. 

Em comum, a cor da pele e a violência policial. Porém, o mais impactante foram as decisões de ambas as cortes de não indiciarem Pantaleo e Wilson pelos assassinatos. A consequência foram os protestos por todos os Estados Unidos, que por um momento retrocederam o país à década de 1960, e a luta pelos direitos civis. 

Manifestante mostra cartaz para os policiais “Nós somos humanos” durante protestos nos Estados Unidos 

Mais do que isso, os casos de violência policial contra negros seguidos das absolvições escancaram a principal ferida aberta da “maior democracia do mundo”: a desigualdade racial. A BBC realizou um estudo sobre a desigualdade racial nos Estados Unidos exposto em cinco áreas: 

1) Desigualdade de renda: para cada US$ 6 com os brancos, os negros têm US$ 1. 
2) Desigualdade jurídica: há 20 vezes mais condenações de negros por casos parecidos. 
3) Desigualdade educacional: três vezes mais expulsões e suspensões escolares. 
4) Desigualdade de tratamento: A maioria dos negros considera que os negros são tratados mais injustamente pela polícia. 
5) Desigualdade de moradia: enquanto 73,4% dos brancos tem casa própria, apenas 43,2% dos negros tem o mesmo privilégio. 

Tais dados evidenciam uma permanência histórica nos Estados Unidos: a desigualdade racial. A importação de negros africanos para os Estados Unidos começou na segunda metade do século 17, principalmente para o trabalho nas lavouras de milho, tabaco, cânhamo, cana-de-açúcar, arroz e algodão. Em 1860, ano da eleição de Abraham Lincoln para a presidência da República, viviam aproximadamente 4 milhões de escravos negros nos Estados Unidos. As diferenças entre o norte industrial e o sul agrário e escravista culminaram com a Guerra Civil Americana. Em 1863, Lincoln assinou a Proclamação da Emancipação, que libertou todos os escravos dos estados confederados, e proibiu a escravidão em todo o país. Apesar disso, segundo o historiador Leandro Karnal, “o presidente pode ser considerado um antiescravista, mas nunca um abolicionista aberto e declarado". O que motivou a abolição foi a intenção de modernização da economia norte-americana frente aos países europeus em processo de industrialização. 

Gravura que representa o mercado de escravos na capital: Lincoln via o comércio de negros de seu gabinete no Capitólio enquanto ainda era congressista 

A abolição, assim como no Brasil, não representou a inserção nos negros na sociedade norte-americana. Mais do que isso, manteve e até aprofundou as desigualdades raciais. No final do século 19, o darwinismo social, expresso na vulgarização da “seleção natural” e da “vitória do mais apto”, fez surgir uma nova justificativa para a segregação, a inferioridade biológica dos negros. Tais teorias embasaram as Leis Jim Crown, decretadas nos estados do Sul. Essas leis representavam medidas segregacionistas que impediam os negros de votarem, de coabitarem espaços públicos e privados e mesmo, em alguns estados, de se casarem com os brancos. A legislação se espalhou pelos Estados Unidos e o segregacionismo se tornou comum em todo o país. Neste contexto, era normal os negros não poderem se sentar na parte da frente dos ônibus ou mesmo caminharem pela mesma calçada que os brancos. Na Carolina do Norte, se um branco retirasse o livro primeiro, nenhum negro poderia emprestá-lo nas bibliotecas públicas. 

Brancos na frente, negros no fundo: ônibus segregado em Atlanta, em abril de 1956

Ainda no final do século 19, em 1865, surgiu a Klu Klux Klan. Criado pelos jovens Calvin Jones, Frank McCord, Richard Reed, John Kennedy, John Lester e James Crowe da Confederação Sulista, o grupo perseguia e violentava os negros considerados “inferiores”. Por conta da violência, o grupo foi posto na ilegalidade pelo presidente Ulysses Grant, em 1871. 

Em 1915, o cineasta Griffith dirigiu o filme “O nascimento da nação”, expressando sua simpatia pela KKK. Tal fato deu novo impulso e o movimento ressurgiu com força. A violência passou a ser dirigida não apenas contra os negros, mas também judeus e estrangeiros. O grupo chegou a reunir 5 milhões de pessoas e permaneceu forte até meados dos anos 80, como mostra uma reportagem do Programa “Fantástico” da Rede Globo. Curiosamente, a reportagem apresenta um membro da Klu Klux Klan indicando a participação maciça de policiais no movimento. 

Passeata de membros da Klu Klux Klan em 1922
Somente em 1954 a Suprema Corte declarou inconstitucional a segregação nos Estados Unidos, porém, na prática, ela continuou existindo. Neste contexto, surgiu o movimento de luta pelos direitos civis no país. Encabeçado em uma frente por Martin Luther King Junior e em outra por Malcom X, os negros se organizaram em torno da luta pelo fim da segregação.

Com apenas 25 anos, o jovem pastor Luther King formou, juntamente com Charles Steele e Fred Shuttlesworth, a Conferência da Liderança Cristã do Sul, uma das maiores frentes no movimento pelos direitos civis, baseada nas práticas na desobediência civil de Gandhi. Em abril de 1963 acabou preso em Birmingham, Alabama, durante protestos antissegregação. Durante Marcha em Washington, em 28 de agosto de 1963, Martin Luther King proferiu o seu famoso discurso “Eu tenho um sonho”. Um ano depois, Luther King recebeu o Nobel da Paz. No dia 4 de abril de 1968, King foi morto, vítima de um tiro de rifle em Memphis, disparado pelo racista James Earl Ray. 

Martin Luther King durante famoso discurso "Eu tenho um sonho" em Washington, 1963

Malcom X, preso em 1946 por furto, se converteu ao Islamismo na cadeia e passou a seguir os ensinamentos de Elijah Muhammed, líder da "Nação do Islã. Em 1952, quando saiu da cadeia, se transformou em um dos principais líderes do movimento negro. Pregava a separação das raças e a criação de um Estado autônomo para os negros dentro dos Estados Unidos. Em 1965, quando discursava no Harlem, foi assassinado com 13 tiros. Na década de 1970 suas ideias foram muito difundidas por movimentos como “Black Power” e “Panteras Negras”. 

As lutas tiveram como resultado o acesso a alguns direitos civis. Na década de 60 foram aprovadas a Lei de Direito ao Voto de 1965; a Ordem Executiva 11.246, que estabelecia ações afirmativas; a declaração de inconstitucionalidade da proibição do casamento interracial em 1967; e a Lei de Direitos Civis de 1968. Apesar disso, os dados apresentados pela pesquisa da BBC e mesmo algumas determinações jurídicas mais recentes, evidenciam que o problema da desigualdade racial ainda não foi superado nos Estados Unidos. Em 1991, o Presidente George H. W. Bush assinou a Lei de Direitos Civis, tornando mais rígidas as leis e aplicando punições para o não cumprimento. Em direção oposta, em 2013, a Suprema Corte derrubou a seção da Lei de Direito ao Voto, que assegurava o voto igualitário aos cidadãos. Na prática esta lei permite aos estados e cidades mudarem as suas leis e procedimentos eleitorais sem necessidade de autorização do governo federal.

Muito além de uma “histeria esquerdista”, como acusa a revista Veja, o entendimento de que os assassinatos de negros seguidos de não indiciamento dos policiais escancara a desigualdade racial historicamente posta nos Estados Unidos e permite evidenciar que o sonho de Luther King ainda está distante de ser alcançado. 

Abraços, 
Osvaldo. 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Reflexos da redemocratização em Itararé: a greve dos agricultores de 1987

por LUCAS SANTOS


A crise econômica de 1929 ocasionou em seu processo inúmeras divergências, não apenas econômicas, mas também sociais. Todo esse saldo negativo fez com que algumas classes julgassem necessárias medidas extremas para manutenção da ordem social, apelando, assim, para o autoritarismo.
No Brasil o cenário foi o mesmo e o resultado foram 20 anos de ditadura, que aparentemente atenderam os anseios do povo com o conhecido e muito citado, pelos saudosistas, “Milagre Econômico”. 

O rombo gerado pelo “milagre”, porém, não foi sanado por seus geradores, o que criou grandes abismos econômico-sociais que deveriam ser tapados pelos agentes da redemocratização. 

As manobras utilizadas por estes, porém, geraram descontentamento, culminando nas mais diversas manifestações de insatisfação do povo que, agora, não tinha negado o seu direito de liberdade. 


Milagre Econômico: antecedentes e saldo 


O Plano de Metas estabelecido por Juscelino Kubitschek, então presidente, no início de década de 1960, ocasionou certo alívio econômico no cenário brasileiro, que vinha sofrendo, ainda, com os rastros da crise de 1929. 

Este alívio, porém, se rompeu em pouco tempo, pois, já em 62, afinal 

os níveis de investimentos e de crescimento industrial apontavam para a recessão no ano seguinte. Era um momento conturbado tanto do ponto de vista político, quanto econômico. A inflação chegava a taxas recordes, em torno de 51%, no setor externo, sucessivos déficits no balanço de pagamentos e a dívida externa acumulava-se.1

Foi apresentado para a atenuação deste cenário, então, o plano trienal, que previa o corte ou redução de gastos públicos, política contracionista. Para alguns economistas 

devido o contexto político e econômico, não havia outra saída senão a aplicação de medidas ortodoxas (e) [...] A tentativa de estabilização fracassou e em 63 a economia cresceu míseros 0,6% e com taxa de inflação anual superior a 83%. Com a desestabilização política interna e externa do governo democraticamente eleito, impediu a implementação de qualquer política de gestão econômica articulada. O resultado, infelizmente, todos nós sabemos: golpe militar.2

Neste período, então, foi desenvolvido o PAEG (Programa de Ação Econômica do Governo), que previa a estabilização do cenário econômico como uma das justificativas para o golpe, através de medidas como a correção monetária e a criação do Banco Central, institucionalizando, assim, as manobras que envolviam tanto o capital interno quanto o externo. 

Estas manobras prepararam o país, econômica e politicamente, para o Milagre Econômico, porém aprofundaram “as características de um modelo econômico dependente e associado ao capital estrangeiro mantendo a matriz industrial implementada com o Plano de Metas.”3 Notamos aqui que mesmo apontando o desenvolvimento econômico proposto pelo regime democrático como falho o regime autoritário estava trilhando pelo mesmo caminho. 

O milagre econômico, entre 1968 e 1973, apresentou taxas de crescimento acima de 10% ao ano, e isso se deveu à reorganização e ao desenvolvimento da economia mundial, bem como a abertura para o mercado externo e a influência do mercado estadunidense, tanto econômica quanto política. 

O crescimento citado, porém, está relacionado ao aumento na concentração de renda, ou seja, foi sentido positivamente apenas pelos setores públicos e privados ligados à indústria, o que “aprofundou as contradições estruturais e aprofundou e os problemas decorrentes de sua enorme dependência em relação ao capital internacional.”4

Em meados da década de 1970, já com as manifestações de insatisfação tanto políticas quanto sociais, surge outro fator que desestabilizaria a economia e desmoralizaria o milagre: o aumento das taxas de juros em relação ao capital financeiro e a queda do preço do petróleo, ambos vindos do próprio financiador das manobras do golpe, os E.U.A.5

Após a perpetuação deste novo cenário, já na década de 1980, ainda dentro do regime ditatorial, o país passou pelo período conhecido como crise da dívida, relativo às dívidas externas ocasionadas pela tentativa de elevação da economia industrial através de investimento estrangeiro. 

Manobras da Democracia 

Durante o período de redemocratização, ainda em seu primeiro ano (1986), o governo do então presidente José Sarney, com o intuito de eliminar a hiperinflação, implantou o Plano Cruzado, que, entre outras mudanças, implicou na implantação do Cruzado enquanto moeda corrente em detrimento do Cruzeiro, utilizado no regime militar. 

O plano, no entanto, foi além desta medida simbólica de ruptura com o regime deposto, pois previa medidas diretas de reajuste econômico, como o congelamento de preços de bens e serviços e o congelamento da taxa de câmbio por um ano, com o dólar valendo Cz$ 13, 84.6

Para combater a inflação, o Plano Cruzado previa a desindexação da economia. Com isso, a correção de dívidas anteriores ao anúncio do pacote passou a ser realizada mediante uma tabela de conversão criada pelo governo. Mas a espinha dorsal do plano foi o congelamento de preços. E também o seu ponto fraco. Os preços corrigidos sazonalmente e em prazos amplos (30, 60 e 90 dias, por exemplo) não foram ajustados monetariamente segundo os novos valores referência. Com isso, tiveram reajustes incompatíveis com a nova realidade inflacionária, aumentando mais de 17%. Isso provocou um desequilíbrio de preços e gerou desabastecimento em vários setores.7

Percebemos, então, que a tentativa de se sobrepor a crise, por parte do governo, não foi tão bem sucedida quanto o esperado, e que, apesar da aceitação das medidas por alguns setores, com por exemplo os trabalhadores urbanos que agiram, inclusive, como fiscais para a manutenção do plano, outros foram prejudicados, sendo alguns dos mais atingidos os produtores rurais, que dependiam dos balanços realizados belo Banco Central para traçarem suas metas de produção e para a aprovação de financiamentos, estes fundamentais, devido à ausência de capital primitivo nos setores agropecuários. 

O dia em que a produção parou 




O município de Itararé tinha sua economia no contexto movimentada pela agricultura e pela pecuária, visto que a extração de madeira (pinnus e eucalipto), que hoje, ao lado do comércio, consiste na principal atividade desenvolvida, estava engatinhando. 

Os agricultores, então, sentindo as dificuldades impostas pelo novo plano de ação político-econômico, participaram, representados pela Comissão de Agricultores de Itararé, de um encontro regional na cidade de Itaí, no ano de 1987, onde foi definido o “Dia Nacional do Protesto”, a ser realizado a 10 de março do mesmo ano.8

O protesto de fato ocorreu, tendo suas mobilizações iniciadas de madrugada, pois os agricultores agiram na zona urbana, então, devido à vagarosidade de seus meios de transporte, que consistiam em tratores e máquinas agrícolas, necessitavam de um tempo vasto para realizar o caminho. 

Chegando ao perímetro urbano, os agricultores se dirigiram às agências bancárias com o intuito de impedir as suas atividades, visto que tinham nestas instituições a representação das sanções do governo em relação aos financiamentos de produção. 

É notável, ao se analisar o jornal, que além dos próprios agricultores, que sentiam diretamente a intervenção do plano em sua atividade, alguns outros setores, como o comércio, apoiaram a manifestação, o que é expressamente notável com a afirmação “a lavoura depende do comércio e este da lavoura”9, feita sob assistência de Eurico Lopes, então, presidente da Associação Comercial de Itararé. 

É necessário ressaltar também o engajamento político da causa agrícola, visto que detinham o apoio de Eurico Lopes, então presidente da Associação Comercial, e este, possuindo representatividade na Câmara Municipal, solicitou a abertura de uma Comissão de Assuntos Especiais, que daria cabo de elaborar, junto aos agentes da Casa da Agricultura e aos chefes de Carteiras Agrícolas dos bancos locais, o relatório da condição da produção agrícola para ser anexado à pasta de assuntos a serem debatidos na esfera Federal.10



Analisando algumas outras documentações e produções do contexto não foi possível detectar nenhum outro tipo de manifestação referente ao plano ou alguma medida tomada pelos órgãos institucionais responsáveis dentro do município. No âmbito nacional, porém, inúmeras outras ações são comentadas pelos órgãos de imprensa. 

Em linhas gerias podemos apontar o fracasso na implantação do plano e a abertura deste em detrimento de algumas medidas paliativas para beneficio dos que se mobilizaram e sentiram as dificuldades do congelamento do mercado.

* Lucas Santos é acadêmico de Licenciatura em História pelas Faculdades Integradas de Itararé. Atua como estagiário na Assessoria de Imprensa da Prefeitura Municipal de Itararé. No Desafinado, assinou os artigos 'Bagunça ou organização?', 'Gayzismo ou saúde pública?''A capoeira e os empecilhos da valorização cultural no Brasil' e "Implicações do desenvolvimento ao território amazônico". 

Referências Bibliográficas 

DANIEL, Paulo. A economia na ditadura. Carta Capital, 2012. Disponível em: < http://www.cartacapital.com.br/economia/a-economia-na-ditadura >. Acessado em: 20 de maio de 2014. 

MOURA, Antônio. Plano Cruzado: da euforia ao fiasco. O Globo Digital. Disponível em: < http://acervo.oglobo.globo.com/fatos-historicos/plano-cruzado-da-euforia-ao-fiasco-9248088 >. Acessado em: 20 de maio de 2014 

Tribuna de Itararé, ano 38, nº 1.833. “Agricultores Realizam Dia Nacional de Protesto”. 

Notas

1 DANIEL, Paulo. A economia na ditadura. Carta Capital, 2012. Disponível em: < http://www.cartacapital.com.br/economia/a-economia-na-ditadura >. Acessado em: 20 de maio de 2014. 
2 Idem. 
3 Idem. 
4 Idem. 
5 Idem. 
6 MOURA, Antônio. Plano Cruzado: da euforia ao fiasco. O Globo Digital. Disponível em: < http://acervo.oglobo.globo.com/fatos-historicos/plano-cruzado-da-euforia-ao-fiasco-9248088 >. Acessado em: 20 de maio de 2014 
7 Idem. 
8 Tribuna de Itararé, ano 38, nº 1.833. “Agricultores Realizam Dia Nacional de Protesto”. 
9 Idem. 
10 Idem.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Os conflitos e a crise na Ucrânia

Sintoma do fim das democracias?

por LUIS FELIPE GENARO

Sempre que posso, em textos e entrevistas, observo o renomado intelectual estadunidense Noam Chomsky se esforçando ao máximo para mudar o que a maioria pensa sobre a grande potência econômica e militar da atualidade: os Estados Unidos da América. Nas palavras do acadêmico, aplicadas com destreza em nossa recente conjuntura, tanto os EUA como o Reino Unido e países da União Europeia podem ser caracterizados como "state-sponsered terrorism" – Estados dito “democráticos” que tutelam e pactuam, a partir de seus interesses geopolíticos, facções e grupos terroristas ao redor do globo. Para Chomsky, os Estados Unidos da América, principalmente, tornaram-se um “leading terrorist state”, peculiaridade que, para muitos, parece desconexo da realidade superficial transmitida pela grande mídia. Os Estados Unidos, o grande modelo de democracia, são um estado terrorista. 


Como se sabe, a crise na Ucrânia se arrasta faz mais de um ano. Assim como a Síria de Bashar al-Assad – padrão que não podemos deixar de comparar – a região tornou-se um tabuleiro movediço, onde peças notórias disputam o controle político-militar do território e o futuro do Estado ucraniano. Não são apenas peças internas. Peças externas tomaram as rédeas da situação desde o início das manifestações, em 2013. Devido aos esforços constantes da grande mídia internacional – as imprensas-empresas do Ocidente – compreender de forma totalizante o conflito nas suas mais diferentes nuances, além de custoso, vem tornando-se um trabalho inviável. 

De fato, o presidente democraticamente eleito Victor Yanucovych, em novembro daquele ano, havia tomado a decisão de tecer relações mais próximas com a Rússia ao invés de estreitar laços, já gastos, com a União Europeia. Se houve pressão financeira de Moscou ou não, é certo que centenas saíram às ruas pedindo a queda de Yanucovych. Para o Ocidente, foi este o momento certo de agir. 

Qual era a narrativa propagandística da grande mídia? “Almejam os manifestantes relações mais profundas com a União Europeia”. Àqueles que assistiram e continuam a assistir aos grandes jornalões da noite, ou abriram as páginas dos mais prestigiosos periódicos, os manifestantes pró-União Europeia foram taxados como “pacíficos”, com “objetivos claros” e reclamando por “mais democracia”. Sabe-se, no entanto, que o contingente mais influente da oposição ao presidente Yanucovych era e permanece sendo uma coalizão de políticos fascistas, xenófobos, racistas, e nada mais, nada menos, que grupos neonazistas. 



O mais proeminente entre esses grupos de oposição é o partido ultranacionalista Svoboda. Ainda em 2012, antes da crise, a BBC publicava uma nota em seu portal online a respeito do crescimento vertiginoso do partido no parlamento ucraniano. Com o aval de uma bancada poderosa de 37 deputados, membros do Svoboda, de tempos em tempos, atacam verbal e fisicamente judeus, estrangeiros, homossexuais, “comunistas”, etc. O crescimento de partidos e grupos de extrema-direita na Ucrânia não é um fato isolado. Na França, na Itália, na Grécia e noutros países da União Europeia, discursos conservadores afloram, crescem e se espraiam com rapidez. Os alvos são inúmeros: gays, muçulmanos, negros, moradores de rua, ciganos, etc. 

Em 22 de fevereiro de 2014, Victor Yanucovych caiu. O presidente interino, Oleksandr Turchynov, prometeu intenso diálogo com as forças pró-Rússia e também com Moscou, mas antes de qualquer coisa, com lideranças da União Europeia. De acordo com Solange Reis, coordenadora do Observatório Político dos EUA (OPEU), “a tendência é a gente olhar isso como uma manifestação popular, uma iniciativa popular para mudar o regime, mas as forças políticas que estão movimentando as manifestações desde dezembro, são forças que vêm sendo plantadas há muito tempo e que têm forte influência de países ocidentais, da União Europeia e dos Estados Unidos”. 


Para grupos de extrema-direita, a Ucrânia é e seria apenas para ucranianos. Como a Alemanha, nos tempos de Hitler, era e deveria ser apenas para alemães “puros”. Em inúmeras regiões, como a Criméia, este nacionalismo radical, violento e até fatal, começou a incitar tensões separatistas, e o conflito entre os pró-Rússia e pró-União Europeia vem se acirrando de forma jamais vista. 

Em um recente e ácido artigo, “À sombra de uma terceira guerra mundial?”, John Pilger não poupou palavras para expressar sua ojeriza à grande mídia, força que desde o início do conflito vem distorcendo e omitindo sistematicamente os acontecimentos no Leste Europeu. “A ocultação dos fatos reais sobre a Ucrânia é um dos mais completos blecautes de notícias de que me recordo em toda a minha vida. A maior concentração de militares ocidentais no Cáucaso e no leste da Europa, desde o final da 2ª Guerra Mundial, é escondida. A ajuda secreta que Washington deu a Kiev e às suas brigadas neonazistas responsáveis por crimes de guerra contra a população do leste da Ucrânia foi apagada do mundo. Todas as provas que desmentem a propaganda segundo a qual a Rússia teria sido responsável por abater em pleno voo um avião civil malaio com 300 passageiros foram apagadas do mundo. E, mais uma vez, quem censura é a imprensa supostamente liberal”. 


A crise na Ucrânia, como a crise na Síria, poderia hoje ser considerada sintoma débil do que chamamos “fim das democracias”. Tentativas de se impor um regime democrático prostrado aos interesses do mercado e do capital financeiro, por forças externas ocidentais, vêm caindo em um paradoxo angustiante. Não há nada democrático no que foi e está sendo feito. 

Golpes, chacinas, assassinatos, incitação de separatismos, ocultação e manipulação de informações são elementos constitutivos da crise na Ucrânia, arquitetada por lideranças ocidentais. Que espécies de democracias são essas? Ao invés de aprimorarmos instituições e órgãos democráticos, estaríamos mais próximos de Estados de vigilância, Estados terroristas. Viveríamos, hoje, numa transição para um sistema que ainda não se sabe, e como bem conceituou Vladmir Safatle, em neodemocracias, onde os plutocratas da guerra são os novos senhores do mundo. Na Ucrânia, quem foi eleito presidente? Ninguém menos que o magnata Petro Poroshenko. 

Em 27 de junho, Poroshenko assinou um acordo histórico com a União Europeia, de livre comércio e cooperação político-militar. Contudo, os conflitos permanecem. Os grupos de extrema-direita estão cada vez mais armados e articulados e uma guerra entre sanções econômicas e disputas regionais está prestes a começar. O Ocidente, novamente, foi bem sucedido. Basta indagarmos: ganhou a democracia?

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Pagando de otário

 Como Lobão se transformou em uma caricatura do derrotismo da direita golpista

por OSVALDO RODRIGUES JUNIOR


João Luiz Woerdenbag Filho, o Lobão. nasceu no Rio de Janeiro em 11 de outubro de 1957. Cantor, compositor, escritor, multi-instrumentista, editor de revista, apresentador de televisão e vlogger brasileiro, obteve sucesso no cenário do rock nacional na década de 1980. Atualmente, Lobão não vive de canções como "Me chama" e "Vida bandida", mas dos holofotes proporcionados pela postura histérica frente ao Partido dos Trabalhadores – PT. Porém, nem sempre foi assim.

No dia 15 de novembro de 1989, Luis Inácio Lula da Silva do Partido dos Trabalhadores – PT - e Fernando Collor de Mello do Partido da Reconstrução Nacional – PRN - disputavam o segundo turno das eleições presidenciais. Enquanto os brasileiros se dirigiam às urnas, Lobão fazia histórica participação no Programa do Faustão, na Rede Globo. Antes de iniciar a música apresentada, Lobão questionou a plateia sobre o voto fazendo um L em alusão a Lula com as mãos. Durante a apresentação, o músico entoou o coro "É Lula lá", colocando a Rede Globo em risco de ser tirada do ar pelo Tribunal Superior Eleitoral. No mesmo contexto, Lobão chegou a exibir uma camiseta do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra – MST. Em outro episódio, Lobão encontrou Lula e José Dirceu e demonstrou toda a sua admiração durante uma comemoração do dia 1º de maio na região do ABC paulista. 



O declínio da carreira artística e os problemas familiares transformaram Lobão em uma "metamorfose ambulante". Antes petista declarado, Lobão passou a adotar uma postura anti-petista. Porém, até aí é extremamente compreensível o músico ter mudado de opinião em relação ao partido e os seus membros. O problema está no discurso de defesa da Ditadura Militar e de impeachment enquanto a "Operação Lava-Jato" ainda está em curso. 

Em participação no Festival da Mantiqueira, ocorrido na cidade de São Francisco Xavier (SP) em 2011, o cantor afirmou a necessidade de repensar a Ditadura Militar. Atacando a Comissão Verdade o músico afirmou: "Aí tem que ter anistia pros caras de esquerda que sequestraram o embaixador, e pros caras que torturavam, arrancavam umas unhazinhas, não [risos]". Para encerrar com "chave de ouro" ainda afirmou que o que fizeram os militares foi defender a nossa soberania. 

Durante as eleições presidenciais em que apoiou o candidato Aécio Neves do Partido da Social Democracia Brasileira – PSDB -, Lobão prometeu ir embora do Brasil caso Dilma Rousseff fosse reeleita. Gerando mais holofotes e a criação de um evento no facebook, intitulado “Festa de Despedida do Lobão”, que contou com a adesão de 171 mil pessoas, o músico mais uma vez alcançou o objetivo de "chamar a atenção". Porém, como todo derrotista, após a confirmação da reeleição de Dilma, Lobão desistiu de ir embora e afirmou nas redes sociais: “Se é para o bem dos bons e desespero total do PT, diga ao povo que fico!”.


Depois deste episódio patético, digno de um adolescente que procura atenção, Lobão passou a encabeçar a campanha pelo impeachment da presidente eleita Dilma Rousseff. Logo no dia 1º de novembro começaram as manifestações pela anulação do resultado e impeachment da presidente. Desde o início, lá estava Lobão, em cima do caminhão de som com o microfone na mão e a palavra, que tanto o seduz. Durante a semana, Lobão participou de um ato que contou com a presença de 26 pessoas no Congresso Nacional, contrárias ao projeto que altera o cálculo do superávit primário. Nesta ocasião, se encontrou com o "democrático" Deputado Federal Marcos Feliciano do Partido Social Cristão – PSC -, que o convidou para ingressar na política partidária e concorrer a um cargo eletivo.

No último sábado, 6 de dezembro, Lobão participou de nova manifestação pelo impeachment da presidente Dilma. Dessa vez, a manifestação foi apoiada por líderes da oposição, dentre eles Aécio Neves, que convocou a população para participar da manifestação. Apesar disso, Aécio não apareceu e frustrou os presentes dentre eles Lobão. Enquanto quatro mil pessoas protestavam em São Paulo, o senador descansava com a família em Santa Catarina, segundo a coluna de Ancelmo Gois no jornal O Globo. Lobão irritado questionou "Cadê os parlamentares? Cadê o Aécio, cadê o Caiado? Estou pagando de otário!". 

Finalmente Lobão caiu em si. Transformado em uma caricatura do derrotismo de uma direita que se assemelha ao menino que joga bola nos campinhos do bairro e ao ver o seu time derrotado dispara "acabou o jogo, a bola é minha", Lobão se transformou em um otário manipulado por parlamentares que não aceitam o jogo da Democracia e continuam a querer mudar as suas regras de acordo com as suas vontades.


Abraços,
Osvaldo.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

"Só não te estupro porque você não merece"

Tudo indica que Bolsonaro saia mais uma vez fortalecido do episódio que a imprensa classifica como "polêmica". Em terra de ditadura feminista gay, quem diria, o misógino homofóbico que é rei



Bolsonaro foi Bolsonaro de novo. 11 anos depois, voltou a agredir a deputada federal Maria do Rosário. "Só não te estupro porque você não merece", foi o que disse o carioca um pouco antes de empurrá-la e chamá-la de vagabunda. O episódio foi registrado pela RedeTV! e se repetiu ontem na Câmara.

Só nos últimos anos, Jair Bolsonaro já disse que negras são promíscuas, que não entraria num avião pilotado por um negro cotista e que o beijo gay na novela da Globo foi um marco na depravação da sociedade. Em todos os casos, panos quentes reinaram: absolvido ou sequer julgado pelo conselho de ética do Congresso, foi presenteado com a maior votação no Rio de Janeiro em 2014 com 464.572 confirmações nas urnas, nada menos que 6,10% entre 1.068 candidatos.

Há pelo menos 2 motivações pras cenas de ontem, transmitidas ao vivo pela TV Câmara. Primeiro, o machismo nosso de cada dia, cada vez mais corriqueiro no ambiente parlamentar. Durante a votação do projeto de lei que prevê mudanças do superávit primário, na penúltima quarta-feira, a senadora Vanessa Grazziotin, do PCdoB, foi interrompida também com gritos de vagabunda. Segundo, a nuvem de ignorância que tomou conta da imagem de Maria do Rosário no país inteiro, sobretudo graças à sua nomeação como ministra da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República pela presidenta Dilma Rousseff. 

Ninguém conhece Maria do Rosário. Nem precisa. Quase tudo o que se sabe sobre ela descende de postagens multiplicadas como viral nas redes sociais sem qualquer conexão com a realidade. Ou melhor, em completa sintonia com o lado mais podre dela. Explico com um exemplo famoso.

Em março deste ano, o próprio Jair Bolsonaro postou em seu Facebook um recorte de jornal em que a então ministra fala a jornalistas sobre o assassinato de um produtor de TV homossexual. Na publicação, Maria do Rosário defende a pena de morte para os criminosos até ser corrigida por alguém que diz serem os infratores menores de idade, o que a obriga a disfarçar usando um controle remoto como celular. A história inteira foi completamente inventada, mas fartamente distribuída na rede de Zuckerberg. Até hoje no ar, o post de Bolsonaro tem nada menos que 22.669 curtidas e 220.386 compartilhamentos.


Apesar de mentiroso, o caso diz muito sobre a relação entre a direita conservadora e os Direitos Humanos. Na falta de entender o que significam, torce-se pelo que quer que eles sejam: um mecanismo de defesa de bandidos. O resultado desta manobra é catastrófico, de várias maneiras. Primeiro porque deixa na esteira os debates sobre segurança pública e que têm servido, até aqui, pra perpetuar um sistema obsoleto e derrotado de encarceramento. Segundo porque autoriza os ataques que os defensores de Direitos Humanos têm sofrido, inclusive e sobretudo Maria do Rosário. 

O Bolsonaro de ontem e 2003 é nada menos que a versão explosiva - com mandato e microfone - da sua tia que clica no botão "compartilhar" sem saber direito do que estão falando. Também não precisa. Suas respostas já foram dadas pela própria intolerância, que vibrou com a honestidade de Rachel Sheherazade a respeito dos justiceiros do Flamengo. Este era um grito guardado que saiu do armário, aparentemente, pra nunca mais voltar.

A tendência é que Bolsonaro saia mais uma vez fortalecido. Se punido pela Câmara pela falta de decoro, endossa o discurso paranoico da ditadura petista. Se não, ganha carta branca pra continuar ofendendo minorias com uma blindagem de fazer inveja a torcidas organizadas de futebol no país inteiro.

Em terra de ditadura feminista gay, quem diria, o misógino homofóbico que é rei.

Abraços, 
Murilo